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terça-feira, 1 de abril de 2008

Viagra rosa

Viagra rosa
27.03.2008
A corrida em busca do Viagra cor-de-rosa já começou, mas há mulheres que não estão interessadas. Há quem critique a medicalização da sexualidade feminina.
Por David Segal

O Viagra faz dez anos hoje. E é verdade que o tempo voou. Parece que foi ontem que nos torcemos de riso à frente da televisão com os anúncios pseudo-simbolistas que eram dedicados ao pequeno comprimido azul e aos seus rivais da "disfunção eréctil" - bolas de futebol atiradas através de pneus, torneiras que começavam a jorrar água. Os spots acabavam com uma lista de possíveis efeitos secundários que pareciam uma caricatura de possíveis efeitos secundários. "Mais de quatro horas?", encolhíamo-nos só de pensar. "Au!"

Por muito embaraçosos que fossem os anúncios, a aprovação do Viagra pela Food and Drug Administration (FDA), a agência americana que controla os medicamentos, no dia 27 de Março de 1998 é um marco na história do sexo.
Na altura todos tivemos a sensação de estar a viver uma revolução biomédica, mas cinco minutos depois do comprimido mágico se ter espalhado pelo mundo alguém fez a pergunta: e onde é que está a versão feminina do Viagra?
A resposta curta é: ainda está a ser desenvolvida. Houve vários laboratórios que tentaram criar o "Viagra cor-de-rosa" - como costuma ser chamado - mas falharam. Outras companhias desenvolveram drogas que estão actualmente em diferentes estádios dos testes clínicos - como um gel que começou recentemente a ser testado num estudo de âmbito nacional nos Estados Unidos, que envolve vários milhares de mulheres, e que deverá provar a sua eficácia ou ser atirado para o caixote do lixo.
"Dêem-nos cinco anos, talvez menos", dizem os médicos e os investigadores mais optimistas. Ainda que ninguém saiba ao certo quantas mulheres pediriam uma receita ao seu médico, ninguém duvida de que a primeira empresa que lance no mercado um remédio para a disfunção sexual feminina (DSF), como é formalmente denominada, ganharia uma fortuna.
Curiosamente, porém, à medida que esta corrida se aproxima da sua última volta, como parece ser o caso, nem todos os espectadores aplaudem os concorrentes. Na realidade, muitos estão a vaiar os corredores com todas as suas forças.
Um pequeno mas fervoroso grupo de psicólogos, académicos e campeões da saúde pública afirma que a DSF não é sequer uma situação clínica - ou, pelo menos, não é o tipo de problema que deva ser tratado com drogas. E não se trata daqueles obtusos médicos (do sexo masculino) que há décadas que dizem às mulheres preocupadas com a sua falta de libido que "está tudo na sua cabeça".
Este grupo anti-DSF é formado principalmente por mulheres e muitas delas descrevem-se como feministas. A mais conhecida é Leonore Tiefer, uma psicoterapeuta e professora da Universidade de Nova Iorque que há muitos anos critica aquilo que chama "a medicalização da sexualidade feminina".
"As empresas farmacêuticas querem dizer às mulheres: "Você não precisa de saber nada. Pode finalmente ter a vida sexual gratificante que procura sem saber nada de nada. Basta perguntar ao seu médico"", diz Tiefer. "Fico chocada com esta atitude, porque no mundo em que vivemos há muitos problemas originados pela ignorância e pela dependência. Pode haver imensas pessoas que não estão interessadas em sexo, mas será que há uma razão médica para isso? E será que temos a capacidade de a diagnosticar?"
A crítica de Tiefer tem a ver com a forma como é de esperar que o Viagra seja promovido - através de anúncios que vão passar noite e dia à frente dos nossos olhos sugerindo que as mulheres que não são sexualmente ousadas têm um problema médico. Tiefer e as suas aliadas - organizadas no grupo New View Campaign - também se sentem irritadas por se estar a gastar tanto dinheiro e por os media estarem a dedicar tanta atenção à pílula da luxúria, ainda antes de ela existir, quando para muitas mulheres a solução para os seus problemas de libido não precisa de ser tão exótica. Talvez tenham um parceiro que não tem a mínima ideia do que deve fazer. Talvez estejam stressadas. Talvez não consigam descontrair-se o suficiente para sentir desejo por estarem demasiado ocupadas a tratar das crianças. Terapia, aconselhamento e jardins-de-infância gratuitos podem fazer mais pela vida sexual das mulheres do que alguma vez alguma companhia farmacêutica conseguirá, diz a New View Campaign.
"Oitenta e cinco por cento das vezes, as pessoas saem do consultório do médico com uma receita na mão", diz Meika Loe, autora de The Rise of Viagra e uma apoiante da New View. "Mas as companhias de seguros não pagam a uma pessoa que queira falar a um terapeuta para se aconselhar sobre a melhor forma de comunicar os seus desejos sexuais. Temos um sistema de saúde que está quase exclusivamente focado nas soluções médicas."
Do outro lado da barricada, aliados das companhias farmacêuticas, estão grupos de médicos que receitam a mulheres atormentadas pela sua vida sexual medicamentos que a FDA não aprovou para esse fim. O mais conhecido destes é Irwin Goldstein, director de Medicina Sexual no Hospital Alvarado, de San Diego. Goldstein e Tiefer discutem o tema da DSF há uma década, mas o médico considera que não há na realidade nada para discutir.
Goldstein usa hormonas para tratar as mulheres e tem todo o gosto em pôr as pessoas interessadas em contacto com pacientes que se desdobram em elogios aos resultados do seu tratamento.
Mulheres como Virginia, nascida na Grã-Bretanha, uma artista de 60 anos, que preferiu que o seu apelido não fosse mencionado. Virginia passou anos a pedir aos médicos algo que estimulasse o seu apetite sexual, que já tinha sido voraz e tinha deixado de o ser. "Todos eles reviravam os olhos, tossiam discretamente e tentavam mudar de assunto", conta. "Mas quando eu era jovem, a minha enorme libido era uma parte importante da minha pessoa, daquilo que eu era. Perder isso foi como perder um grande amigo."
Há três anos, Virginia ouviu Goldstein dar uma entrevista à National Public Radio. Umas semanas depois foi a Boston, onde o médico tinha então o seu consultório, e passado algum tempo estava a fazer um tratamento hormonal. Foi preciso ir ajustando a combinação de hormonas e a dose, mas passadas umas semanas começou subitamente a sentir-se mais confiante do ponto de vista sexual e mais atraente. E o sexo começou a ser muito mais gratificante.
"Há uns anos eu conseguia chegar ao sétimo céu", explica. "Agora consigo chegar ao quinto. É muito melhor que o purgatório".
Excitação ou desejo
Numa coisa toda a gente está de acordo: a busca do Viagra cor-de-rosa está a revelar-se mais complicada do que se pensava. Até agora tem-se saltado de desilusão em desilusão
Houve o PT-141, da Palatin Technologies, uma droga inalada através de um spray nasal e que, nos testes preliminares, produziu uma estimulação sexual tanto nos homens como nas mulheres, o que deu origem a rumores em 2005 de que uma esguichadela no nariz era tudo o que era necessário para que uma pessoa ficasse pronta para tudo.
"O primeiro afrodisíaco verdadeiro, honesto, excitante, trepidante e disponível para os dois sexos", arquejava a revista New York nesse ano. Mas não era. Em Agosto, a FDA suspendeu os testes clínicos referindo riscos de hipertensão arterial.
Depois veio o Intrinsa, um penso fabricado pela Procter & Gamble que injectava testosterona na corrente sanguínea através da pele. (A testosterona, uma hormona associada ao desejo sexual, é produzida também pelas mulheres, ainda que em menores quantidades que nos homens.) Também foi suspenso pela FDA.
E é claro que, muito antes da medicina moderna, houve experiências descabeladas com unguentos, insectos e corno de rinoceronte moído. A busca de um afrodisíaco feminino é aparentemente tão velha como o namoro.
Com os homens, tudo o que um medicamento tem de provocar é uma excitação - ou seja, uma erecção. O homem em geral consegue convocar a luxúria sem mais ajuda. Uma mulher, porém, pode ficar sexualmente excitada - ou ter todos os sinais físicos da excitação sexual - e continuar sem interesse em sexo. É por isso que o Viagra não funciona com as mulheres, ainda que produza nelas praticamente o mesmo efeito físico - afluxo de sangue às partes baixas - que nos homens.
A excitação sexual nas mulheres nem sempre leva ao desejo. Até a Pfizer demorou um bocado a compreender o conceito. A empresa testou 3000 mulheres ao longo de oito anos antes de abandonar a esperança (em 2004) de que o próprio Viagra pudesse ser o Viagra feminino.
"O que sabemos é que, nas mulheres, muito pouco do que acontece no capítulo do sexo se passa abaixo da cintura", diz Anita Clayton, professora do Centro de Investigação Clínica Psiquiátrica da Universidade de Virgínia e co-autora do livro Satisfaction: Women, Sex and the Quest for Intimacy. "Quase tudo se passa acima do pescoço."
O que levanta outra questão complexa: se o desejo nas mulheres está "acima do pescoço" como é que o medimos?
Para conceder a vitória na corrida do Viagra cor-de-rosa, a FDA quer dados que demonstrem um aumento do número de "eventos sexualmente gratificantes" para as mulheres. Só que é um pouco difícil de definir o que é um "evento sexualmente gratificante" e eles podem ser fantasticamente variados e nem sequer se traduzem necessariamente em orgasmos.
O que significa que o Viagra cor-de-rosa deve ultrapassar obstáculos muito mais difíceis de transpor do que alguma vez se exigiu do Viagra: tem de despertar o desejo mas também tem de proporcionar "eventos gratificantes". Clayton acha que se definiu um standard que é irrazoavelmente elevado - talvez porque o Governo não queira colocar à venda uma droga que aumenta o desejo das mulheres, por razões vagamente puritanas.
"Dir-se-ia que o Governo receia que as mulheres se transformem em ninfomaníacas", diz Clayton. "Repare: a FDA bloqueou a pílula do dia seguinte durante anos. Porquê? Ou estavam preocupados com a possibilidade de as mulheres se começarem a portar mal ou não percebem a sexualidade feminina."
Há empresas farmacêuticas que dizem que conseguirão satisfazer os critérios da FDA, sejam eles quais forem. Em Janeiro deu-se início nos Estados Unidos a 100 ensaios clínicos do LibiGel, um gel de testosterona fabricado pela BioSante. As mulheres devem aplicar um pouco de LibiGel nos braços uma vez por dia. O gel vai fazendo subir os níveis de testosterona ao longo dos meses.
Um laboratório alemão, Boehringer Ingelheim, descobriu que uma droga que tinha desenvolvido contra a depressão não animava os deprimidos mas estimulava a libido das mulheres. Espera que a droga seja aprovada pela FDA para a nova indicação em 2009.
Quanto mais cedo melhor, dizem muitos médicos que trabalham no domínio da sexologia, que descrevem a DSF como uma epidemia que se está a espalhar silenciosamente entre as mulheres, particularmente após a menopausa.
As sondagens sobre este tema, tal como acontece sobre muitos outros relacionados com sexo, apresentam resultados muitos díspares, conforme a maneira como se formula a pergunta.
Um estudo recente publicado na revista American Family Physician analisou um conjunto de inquéritos e concluiu que entre 10 e 46 por cento das mulheres sofriam de "desejo sexual hipoactivo" - uma expressão usada para a DSF.
Outros estudos concluíram que a maior parte das mulheres que estão preocupadas com a sua vida sexual se sente demasiado envergonhada para discutir a questão com o médico. E, as que falam disso, ouvem muitas vezes em resposta que o que precisam é de um psiquiatra.
"Quando comecei a trabalhar nesta área, nos anos 70, noventa por cento dos tratamentos eram psicológicos", diz Irwin Goldstein. "Partia-se simplesmente do princípio de que todos os casais precisavam de psicoterapia."
O sucesso do Viagra mudou radicalmente o panorama. Durante décadas, o homem que não conseguia ter uma erecção era considerado "impotente", o que significava que precisava de se deitar num sofá e falar do seu problema com um psicoterapeuta. O Viagra redefiniu a impotência como "disfunção eréctil" e demonstrou que muitos homens não precisavam de desentupir a psique para resolver o problema: precisavam apenas de maior vasodilatação do corpus cavernosum. Por outras palavras: precisavam de um comprimido.
Depois do lançamento do Viagra, Goldstein começou a organizar conferências anuais para divulgar a sua investigação e discutir ideias sobre a DSF, que era então um diagnóstico relativamente pouco comum. Cerca de 500 médicos e representantes da indústria farmacêutica apareceram no primeiro Boston Forum, como se chamava. Em 1999. A imprensa também apareceu. Foi a partir daqui que a DSF se tornou credível.
Esse foi também o momento em que Leonore Tiefer se transformou numa activista. O que a inquietava, conta, era a ideia de que "as mulheres iriam ser sobremedicadas e iriam receitar-lhes coisas de que não precisavam e que não as iriam ajudar".
A ciência do orgasmo
O facto de vários laboratórios farmacêuticos apoiarem a conferência reforçou a sua convicção de que a indústria estava simplesmente a inventar uma nova doença para poder explorar um novo mercado. A crítica iria ganhar adeptos nos anos seguintes em sectores da academia.
Um artigo publicado em 2003 no Journal of British Medicine considerava a DSF "o mais recente e mais claro exemplo que existe" da "criação de uma doença com base no patrocínio das grandes corporações".
Entretanto, estamos cada vez mais próximos de compreender o prazer sexual naquilo que ele possui de mais básico em termos químicos.
Um pequeno grupo de neuropsicólogos, por exemplo, está a usar tecnologias avançadas de imagiologia para perceber o que acontece na mente das mulheres, do ponto de vista biológico, no momento do êxtase sexual. Um desses investigadores é Barry Komisaruk da Rutgers University, co-autor de The Science of Orgasm. No seu laboratório de Newark, em New Jersey, Komisaruk liga mulheres a máquinas de ressonância magnética nuclear funcional (F-MRI), que conseguem analisar a actividade neuronal em tempo real, de forma a obter uma imagem dinâmica do cérebro enquanto as mulheres se auto-estimulam.
Komisaruk pode gabar-se de ter chegado àquilo que é provavelmente o relato menos romântico que existe do prazer sexual feminino: é um fluxo da hormona dopamina para uma parte do cérebro chamada nucleus accumbens. Se houvesse uma pílula que conseguisse reproduzir essa experiência, ela não seria um bom substituto para uma relação amorosa, concede o investigador.
"E concordo que há um risco de abuso por parte das empresas farmacêuticas, que já foram culpadas de inventar doenças para vender medicamentos. Por outro lado, se uma mulher se sente infeliz devido à falta de desejo sexual na sua vida e se nós a podemos ajudar... porque não?"

Exclusivo PÚBLICO/Washington Post

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